O clima se defende com o povo organizado

A Amazônia será o centro do mundo durante a COP 30. A realização do evento em Belém coloca o Brasil e a região amazônica no centro do debate climático global. 

Esse marco histórico, porém, não pode se restringir à diplomacia oficial e às negociações entre governos e corporações transnacionais. A COP 30 deve ser um momento de afirmação política dos povos e movimentos sociais da Amazônia e do Sul Global, que historicamente enfrentam os efeitos mais cruéis da crise climática e constroem, nos territórios, as verdadeiras soluções para o futuro do planeta. Povos da floresta, do campo, das águas e das periferias urbanas sustentam o planeta com sua resistência e suas práticas de cuidado, afirmando que a defesa do clima começa com a defesa da vida e dos territórios.

A emergência climática é resultado direto de um sistema econômico baseado na exploração ilimitada da natureza e das pessoas. As elites econômicas e as corporações do Norte Global, principais responsáveis pelas emissões históricas, seguem impondo falsas soluções que aprofundam desigualdades e consolidam novas formas de colonialismo. A financeirização da natureza, os mercados de carbono e as transições “verdes” corporativas não garantem soberania e nem justiça climática, apenas reproduzem o controle corporativo e financeiro do Norte Global, aprofundando o colonialismo verde sobre os territórios e os modos de vida.

A atual arquitetura do financiamento climático internacional é uma das expressões mais evidentes dessas desigualdades. Grande parte dos recursos continua concentrada em instituições multilaterais, grandes fundos privados e estruturas burocráticas distantes das realidades dos povos e dos territórios, o que exclui os sujeitos que efetivamente enfrentam a crise climática. São os movimentos sociais, as comunidades quilombolas, povos indígenas, agricultoras e agricultores familiares, periferias urbanas e populações ribeirinhas, que já constroem respostas concretas por meio da agroecologia, da economia solidária, do manejo sustentável das águas, da terra e das redes de cuidado com práticas mais consistentes de mitigação e adaptação popular à crise climática. Essas iniciativas não se limitam a resistir, mas criam formas de viver, produzir e cuidar da vida e do território, enfrentando os impactos das mudanças do clima com base em solidariedade, saberes tradicionais e organização coletiva. Valorizar e financiar essas práticas também é um ato político e de justiça.

O financiamento climático não pode continuar refém da lógica do lucro, da mitigação corporativa e das soluções técnicas desconectadas dos territórios. É preciso disputar esse campo para garantir redistribuição real de recursos, fortalecimento das experiências locais e investimento direto, desburocratizado e transparente nas comunidades que sustentam a vida. O financiamento para adaptação, nesse sentido, deve ser reconhecido como eixo estratégico e urgente das políticas climáticas, orientada pela autonomia dos povos e pela soberania dos territórios.

É nesse sentido que os eventos paralelos como a Cúpula dos Povos, a Casa das ONGs, Casa Sul Global, entre outras iniciativas, tornam-se espaços fundamentais para reafirmar a voz das organizações populares, das comunidades tradicionais, dos povos indígenas e das redes de solidariedade que sustentam a vida. Esses espaços reúnem a potência das lutas coletivas e expressam uma agenda climática enraizada na justiça social, na defesa dos bens comuns e na soberania dos povos.

A Cúpula dos Povos, especialmente, é uma expressão viva dessa força coletiva que resiste e propõe caminhos concretos frente à crise climática. Enquanto as negociações oficiais seguem capturadas por governos, corporações transnacionais e lobistas, a Cúpula afirma que as respostas verdadeiras estão nos territórios e nas práticas de solidariedade entre os povos. É nesse espaço que se renovam as alianças entre o campo, as florestas, as águas e as cidades, reafirmando que defender o clima é enfrentar as desigualdades e o colonialismo verde que sustentam a destruição ambiental e social.

Reafirmamos o compromisso com o fortalecimento das lutas populares, com a soberania dos povos, com a adaptação justa e com o enfrentamento das desigualdades que estruturam a crise climática.


Porque o clima se defende com o povo organizado, com quem planta resistência, cultiva solidariedade e faz da luta coletiva o caminho para o equilíbrio da vida na Casa Comum.