Sustentar a luta da população trans por recursos e poder

Por Tiffany Neris – Travesti negra e ativista. Atualmente é assessora de comunicação da Pacová.

Falar da questão trans é, necessariamente, fazer escolhas políticas. Não se trata apenas de reconhecimento simbólico ou de marcar uma data no calendário, mas de decidir quem pode existir com dignidade em uma sociedade profundamente desigual. Trata-se de disputar quem acessa direitos, quem tem condições materiais de permanecer viva, quem recebe investimento público e privado e quem continua sendo empurrada para as margens das decisões que organizam a vida social, econômica e política do país. A questão trans revela, de forma aguda, como poder e recursos são distribuídos de maneira excludente.

A exclusão de pessoas trans e travestis não é fruto do acaso nem de falhas pontuais do sistema. Ela é produzida de forma contínua pela negação de acesso a políticas públicas, educação, saúde, ao trabalho digno, à moradia, à proteção social e também aos fluxos de financiamento que sustentam organizações e agendas políticas. Mesmo em campos comprometidos com o enfrentamento das desigualdades, a pauta trans ainda é frequentemente tratada como setorial ou secundária. Sustentar essa luta exige ir além de apoios pontuais e simbólicos, demandando recursos contínuos, confiança política e compromisso com processos de longo prazo que enfrentem a transfobia como estrutura e não como exceção.

Ao longo da minha trajetória, fui compreendendo que apoiar a luta trans nunca é um gesto neutro. Trata-se de um posicionamento ético e político que reconhece pessoas trans como sujeitas políticas, produtoras de conhecimento, de organização coletiva e de respostas concretas às violências que enfrentam cotidianamente. A relação entre quem doa e quem luta não pode ser burocrática ou instrumental. Ela precisa ser construída a partir da corresponsabilidade, do compartilhamento de riscos e da compreensão de que sustentar uma luta é também se implicar nos seus desafios, contradições e horizontes de transformação.

No trabalho que realizamos na Pacová, esse entendimento orienta nossa atuação política no campo da filantropia. Atuamos para tensionar práticas tradicionais de doação e afirmar uma filantropia solidária comprometida com a redistribuição de recursos, poder e decisão. Isso implica defender financiamentos flexíveis, de longo prazo e baseados na confiança, que reconheçam movimentos sociais e organizações populares como sujeitos políticos capazes de definir seus próprios caminhos. Neste Dia da Visibilidade Trans, reafirmamos que a questão trans não se resolve com gestos simbólicos ou narrativas bem-intencionadas, mas com escolhas concretas sobre como os recursos circulam, quem participa das decisões e quais lutas são sustentadas. Sustentar a luta da população trans é sustentar a radicalidade de um projeto de sociedade que enfrenta desigualdades estruturais e se compromete, de fato, com a transformação.